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Juliana Barros: o humor como linguagem de transformação

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Juliana Barros - Foto: Liane Neves

Atriz, diretora, dramaturga e produtora, Juliana Barros construiu uma trajetória marcada pela capacidade de transformar experiências pessoais em encontros genuínos com o público. Entre a emoção do retorno aos palcos, a criação de espetáculos que unem humor e reflexão e a defesa de um teatro conectado às vivências coletivas, seu trabalho tem encontrado na comédia uma poderosa ferramenta de diálogo. Nesta entrevista, a artista fala sobre as mulheres que inspiraram sua formação, os desafios da liderança feminina na cena cultural, a presença de Porto Alegre em sua dramaturgia e o potencial transformador do riso quando colocado a serviço da escuta, da empatia e da convivência.

Quem são as mulheres da cena artística gaúcha que são referências para o que você faz hoje?
É muito difícil escolher, porque tive o privilégio de cruzar o caminho de mulheres extraordinárias na cena artística gaúcha. Cada uma delas contribuiu, de alguma forma, para a artista que sou hoje.

A primeira é a Irene Brietzke, que é uma verdadeira mestra para mim. Durante muito tempo sonhei em trabalhar com ela e, quando essa oportunidade chegou, procurei aproveitar cada ensaio como uma aula. A Irene me ensinou o rigor artístico, a importância da precisão e do detalhe. Com ela aprendi que nada em cena acontece por acaso. Tudo era cuidadosamente pensado, experimentado e lapidado, como um grande quebra-cabeça. E, curiosamente, quanto mais domínio havia sobre a técnica, mais vivo, orgânico e emocionante o espetáculo se tornava. Esse olhar me acompanha até hoje, tanto como atriz quanto como diretora.

Outra referência fundamental é a Carlota Albuquerque, que, inclusive, está participando deste projeto. Conheci a Carlota em 1993: eu era atriz e ela, coreógrafa. Desde aquele primeiro encontro fiquei fascinada pela criatividade, pela inventividade e pela liberdade com que ela cria. Ao longo dos anos tive a alegria de convidá-la para diversos trabalhos, entre eles O Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, e, mais recentemente, Adivinha o que é, inspirado no repertório do MPB4. A Carlota tem uma capacidade rara de transformar ideias em poesia cênica, e isso sempre me inspira.

Também preciso falar da Liane Venturella. Para mim, ela é uma das artistas mais completas da nossa cena. Transita entre diferentes linguagens com uma naturalidade impressionante e consegue reunir sensibilidade, delicadeza e uma enorme potência artística. Sempre que assisto a um trabalho da Liane, saio com a sensação de ter vivido uma experiência inteira, intensa e profundamente humana. É uma artista que admiro muito e com quem continuo aprendendo, mesmo da plateia.

Poderia citar muitas outras mulheres que admiro profundamente, porque a cena gaúcha é rica em talentos femininos. Mas essas três tiveram um impacto muito especial na minha formação. Cada uma, à sua maneira, me ensinou que fazer teatro exige sensibilidade, disciplina, coragem e generosidade. São artistas que abriram caminhos e que seguem inspirando não apenas o meu trabalho, mas também a maneira como procuro conduzir os meus próprios processos criativos.

Qual projeto ou momento mais te marcou ao longo da sua trajetória artística?
Essa talvez seja a pergunta mais difícil de responder, porque minha trajetória artística começou muito cedo e é bastante diversa. Iniciei minha carreira como atriz profissional ainda antes dos 18 anos, no final da década de 1980, e, desde então, vivi muitas experiências que me marcaram profundamente.

Mas, se eu tiver que escolher um momento, ele não foi necessariamente o de maior sucesso ou visibilidade. Foi o momento em que reencontrei a artista que sempre existiu em mim.

Durante mais de uma década, precisei colocar minha carreira em segundo plano para priorizar o sustento da família e outras responsabilidades. Foi uma escolha necessária, mas que também significou um afastamento de uma parte muito importante da minha identidade. Voltar ao teatro foi, antes de tudo, um reencontro comigo mesma.

Esse momento aconteceu na estreia de Os Dois Gêmeos Venezianos, uma montagem de comédia dell'arte, no palco do Theatro São Pedro, completamentelotado. Lembro da emoção de entrar em cena e sentir que aquele era, novamente, o meu lugar. Foi uma noite inesquecível.

Tenho um carinho muito especial pela grande diretora Suzi Martinez, que conduziu esse processo com muita sensibilidade. Acreditou em mim em um momento em que eu precisava voltar a acreditar em mim mesma. Seu acolhimento, sua confiança e seu olhar artístico foram fundamentais para que eu retomasse esse caminho.

Hoje percebo que aquela estreia representou muito mais do que um retorno aos palcos. Ela marcou o início de uma nova fase da minha trajetória. Foi a partir dali que passei a escrever meus próprios espetáculos, dirigir, produzir e desenvolver uma pesquisa artística que hoje se tornou a marca do meu trabalho. Se hoje posso falar sobre Terapia de Casal, Terapia Colorida, DDD Saltimbancos e tantos outros projetos, é porque, naquela noite, eu tive a coragem — e também o apoio certo — para voltar a ocupar o lugar onde sempre senti que pertencia.

O que muda no processo criativo quando o elenco, a equipe ou o coletivo é majoritariamente feminino?
Na verdade, eu ainda não vivi um processo criativo em que a equipe fosse majoritariamente feminina. A maior parte da minha trajetória aconteceu em equipes mistas ou, muitas vezes, predominantemente masculinas. E isso influencia bastante a forma como a mulher ocupa um lugar de liderança.

Quando uma mulher assume a direção, muitas vezes ela precisa provar sua competência o tempo todo. É como se cada decisão precisasse ser constantemente validada. Se é firme, pode ser vista como autoritária. Se é objetiva, dizem que é impaciente. Se demonstra emoção, pode ser considerada instável. Existe um conjunto de expectativas que ainda pesa muito mais sobre as mulheres do que sobre os homens.

Além disso, frequentemente se espera que a diretora não seja apenas uma liderança artística, mas também alguém que acolha emocionalmente toda a equipe, que esteja sempre disponível para ouvir, compreender e cuidar de todos. É uma carga invisível que raramente é exigida dos homens que ocupam a mesma função. Costumo brincar que a diretora precisa conduzir o processo com firmeza, sem jamais levantar a voz e, de preferência, ainda oferecer um "colo" para quem precisar. Tem um pouco de ironia nessa fala, mas também tem bastante verdade. 

Por isso, tenho muita curiosidade de vivenciar um processo formado majoritariamente por mulheres. Não porque eu acredite que ele será perfeito ou livre de conflitos, mas porque imagino que algumas dessas disputas por legitimidade simplesmente deixem de existir. Acredito que isso pode abrir mais espaço para uma troca horizontal, para uma escuta genuína e para uma colaboração construída a partir de experiências compartilhadas.

Acho que projetos como este são importantes justamente porque ampliam a presença das mulheres em espaços de criação e liderança. Quanto mais mulheres dirigem, produzem e ocupam lugares de decisão, mais natural isso se torna para toda a sociedade. E espero que chegue o dia em que uma diretora seja reconhecida apenas pelo seu trabalho, sem precisar provar o tempo todo que merece estar ali.

Porto Alegre aparece na sua obra? De que forma a cidade entra no que você cria?
Porto Alegre aparece na minha obra de forma muito orgânica. A dramaturgia que escrevo nasce daquilo que sinto necessidade de expressar, questionar e compartilhar, e isso passa, inevitavelmente, pelas minhas vivências e pelas referências que construí vivendo nesta cidade.

Em Terapia de Casal – Uma Comédia em Crise, por exemplo, embora a história trate das relações afetivas de maneira universal, há muitas referências aos nossos anos 1980 e 1990, às memórias, aos costumes e ao jeito de viver do porto-alegrense. O mais bonito é perceber que o público reconhece essas referências. As pessoas riem, se emocionam e se identificam porque enxergam um pouco das próprias histórias ali. Acho que esse é um dos maiores elogios que um artista pode receber.

Agora, em DDD Saltimbancos, que vai estar no teatro Simoes Lopes Neto  em outubro, percebi algo muito interessante durante o processo de escrita. A peça conta a história de quatro artistas que se encontram em um teatro abandonado, durante uma noite de apagão mundial. Esse teatro carrega as marcas de uma enchente, e, sem que isso tivesse sido uma intenção consciente no início, percebi que estava escrevendo sobre algo que nos atravessa profundamente. Depois de tudo o que vivemos, a enchente deixou de ser apenas um acontecimento para se tornar parte da nossa memória coletiva.

Entendi que, de alguma forma, eu estava escrevendo sobre mim, sobre os artistas da minha geração e sobre Porto Alegre. A cidade não aparece apenas como cenário, mas como uma presença que molda nossos afetos, nossas perdas, nossa capacidade de reconstrução e a forma como enxergamos o mundo.

Acho que esse é o teatro que me interessa fazer: um teatro que fala a nossa língua, que parte das nossas experiências e que dialoga com questões universais sem perder suas raízes. Quanto mais verdadeiro é o ponto de partida, maior é a possibilidade de a história tocar pessoas de qualquer lugar.

A exemplo do projeto Educar Colorido, como o teatro de comédia pode ser uma porta de entrada eficaz para debater assuntos que muitas vezes enfrentam resistência na sociedade?
Acredito que a comédia é uma das linguagens mais potentes para provocar reflexão. Ao longo da minha trajetória como diretora, atriz e produtora, venho pesquisando justamente esse lugar do humor: um recurso que aproxima as pessoas, cria identificação e abre espaço para conversas que, muitas vezes, seriam recebidas com resistência.

Essa pesquisa começou com Terapia de Casal – Uma Comédia em Crise. Embora seja uma comédia sobre os desafios das relações afetivas, o espetáculo nunca teve como objetivo apenas divertir. Desde o início, meu interesse era utilizar o humor para fazer o público rir, se reconhecer nas situações vividas pelos personagens e, ao mesmo tempo, refletir sobre seus próprios comportamentos e formas de se relacionar. Tanto, que sempre fizemos bate-papos com terapeutas de casal após as apresentações, que foram incríveis.

Foi dessa experiência que nasceu Terapia Colorida – Tudo Junto e Misturado. O espetáculo ampliou essa investigação ao abordar, com leveza, sensibilidade e muito humor, a história de dois casais LGBTQIAPN. A excelente recepção da peça, e os bate-papos que gente realizava após as apresentações, revelaram o potencial do espetáculo como ferramenta de diálogo, e foi justamente ela que deu origem ao projeto Educar Colorido.

O projeto levou o espetáculo para estudantes do Ensino Médio, junto com ações formativas e rodas de conversa. A proposta era transformar a experiência artística em um espaço de escuta e reflexão, no qual os jovens pudessem dialogar sobre diversidade, combater preconceitos e pensar sobre convivência de forma acolhedora. O riso criava uma conexão imediata com os personagens, a história emocionava e, depois, naturalmente abria caminho para perguntas, relatos pessoais e discussões profundas.

Essa experiência reafirmou uma convicção que orienta meu trabalho: a comédia não enfraquece temas importantes, ela cria pontes. Quando o público ri, ele também se sente mais disponível para ouvir, compreender e revisitar suas próprias ideias. O humor tem o poder de desarmar preconceitos sem perder a profundidade da discussão.

Hoje percebo que essa pesquisa se tornou uma marca da minha identidade artística. Tenho buscado desenvolver espetáculos que unem entretenimento e reflexão, utilizando a comédia como uma linguagem capaz de emocionar, provocar diálogo e gerar impacto social. Acredito que o teatro alcança sua maior potência quando consegue divertir o público e, ao mesmo tempo, fazer com que ele saia da plateia olhando para o mundo — e para o outro — de uma forma diferente.

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