Governo do Estado do Rio Grande do Sul
Secretaria da Cultura
Início do conteúdo

Deborah Finocchiaro: "Esse ofício me move, me faz acreditar na cooperação e nas construções coletivas."

Publicação:

-
Deborah Finocchiaro - Foto: Liane Neves

Atriz, diretora, dramaturga, escritora e produtora cultural, Deborah Finocchiaro construiu uma trajetória marcada pela multiplicidade de linguagens e pelo compromisso com a arte como ferramenta de encontro, reflexão e transformação social. Entre espetáculos, projetos literários, ações formativas e iniciativas voltadas aos direitos humanos, sua obra atravessa temas fundamentais da sociedade brasileira sem abrir mão da poesia, do humor e da sensibilidade. Nesta entrevista, Deborah revisita momentos marcantes de sua caminhada artística, fala sobre as mulheres que a inspiram, a presença de Porto Alegre em seu trabalho e o papel do teatro diante das urgências do nosso tempo. A conversa integra a série especial do projeto Mulheres da Cena Gaúcha, que reúne depoimentos de diretoras que ajudam a construir e renovar a cena teatral do Rio Grande do Sul.

Quem são as mulheres da cena artística gaúcha que são referências para o que você faz hoje?
Muitas, de diferentes linguagens, que mais do que referências são mulheres que admiro, que me inspiram, que me movem. Mas como não quero deixar nenhum nome de fora, me limito a citar as minhas grandes referências, que na verdade são referências de uma vida: minhas irmãs Lory e Laura Finocchiaro.

Qual projeto ou momento que mais te marcou ao longo da sua trajetória artística? 
Difícil dizer o que mais me marcou, porque são muitos! Muitas lembranças e encontros significativos que me marcaram e transformaram profundamente. 

Se fosse para citar um, talvez a gravação do DVD de "Sobre Anjos & Grilos - O Universo de Mario Quintana" em 2015. Foi no Theatro São Pedro, lotado, onde aconteceu uma das comunhões, entre palco e platéia, mais surpreendentes, profundas e prazerosas que vivi. Alí a possibilidade cênica se expandiu para além do espaço e essa experiência inesquecível me agigantou para  além de mim mesma.

Bem, mas como escrevi acima, por serem inúmeros momentos, cito aqui apenas algumas realizações e acontecimentos: A segunda peça da minha vida, em 1985,  “Morangos Mofados”, onde o ofício de atriz se revelou; as peças infantis “ A Arca de Noé” e “Risco, Arisco e Corisco”, “Pois é, Vizinha…” a peça da minha formatura na faculdade de artes cênicas, foram cerca de 700 apresentações durante 30 anos; “O Urso”, peça que diriiji com o Grupo dos Cinco, que nos levou a inúmeras aventuras coletivas e uma grande experiência estética; “Sobre Anjos & Grilos - O Universo de Mario Quintana” que percorreu o país inteiro levando a poesia desse gêniopoeta, contribuindo para romper o preconceito em relação à poesia; “Caio do Céu”, sobre a obra do incrível Caio Fernando Abreu; o projeto “Confessionário - Relatos de Casa” (tanto a peça quanto a webserie com seus 30 episódios com relatos reais sobre violência doméstica e de gênero) que além de me ampliar em todos os sentidos reuniu mais de 200 profissionais e provocou mais de 150 denúncias contra os abusadores; o “Sarau Voador - Literatura e Improvisos Transcriados” que em suas mais de 50 edições reuniu cerca de 400 artistas de diferentes linguagens; o vídeoteatro "Invisíveis - Histórias para Acordar", projeto transmídia que traz relatos reais de grupos de mulheres invisibilizadas (prostitutas, moradoras de rua, ciganas, vítimas de tráfico humano e presidiárias) que me fez mergulhar no universo audiovisual e ratificar o compromisso com as causas sociais;  o livro infantil editado pela Bestiário, que virou peça de teatro “Baile das Letrinhas” para crianças de todas as idades e resultou em mais um livro editado pela Libretos “Baile das Letrinhas - Uma peça de Teatro”, que traz a dramaturgia da peça e ensina a montá-la; “Menina de Tranças e Cabelos Brancos”, o nosso manifesto antirracisata a partir da obra de Lilian Rocha que também partilha o palco comigo; o projeto “Podres de Ricos”, que aborda a extrema riqueza e suas mazelas e o recente trabalho/encontro ainda inédito: "Coração Exposto - Todo Mundo Tem Uma Mãe", um experimento líteromusical com Bel Medula, que literalmente traz para a cena nossa liberdade criadora! 

Enfim, esse ofício me move, me faz acreditar na cooperação, nas construções coletivas,  me dá forças para seguir, incansavelmente, nesse caminho, com todos os seus percalços tendo a certeza de estar contribuindo, de alguma forma, por mundos mais dignos e menos desiguais. 

O que muda no processo criativo quando o elenco, a equipe ou o coletivo é majoritariamente feminino?
A forma, a sensibilidade, a entrega, a linguagem, tudo! 

Porto Alegre aparece na sua obra? De que forma a cidade entra no que você cria? 
Sim, muito! Além das duas peças que citei acima, “Sobre Anjos & Grilos - O Universo de Mario Quintana” e “Caio do Céu”, sobre a obra de Caio Fernando Abreu, o “Sarau Voador” valoriza, enaltece e promove encontros de diferentes artistas e obras da nossa cidade. E em 2008 realizamos o projeto transmídia (peça teatral, show musical e o livro/ CD editado pela Tomo) “Histórias de um Canto - Memórias de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul”, que traz uma contundente pesquisa das nossas histórias, desde a chegada dos Guaranis nessas terras, quanto lendas urbanas e até a existência de homens primitivos no Morro do Osso.  

Na sua visão, como o teatro consegue equilibrar a leveza da poesia com o peso da crítica social sem perder o poder de entreter?
Com muito trabalho, com uma boa equipe, com muita dedicação e disciplina para, com qualidade, conseguir promover uma comunicação responsável, profunda e verdadeira com o espectador. 

Qual o papel do teatro nesse momento de índices de violência contra a mulher em crescimento?
Fazer da cena um espaço de escuta, troca e reflexão coletiva. Informar, encorajar as mulheres a darem seus relatos, a denunciarem e saberem que não estão sozinhas. Promover o questionamento e o incentivo para que todas as pessoas se deem conta que isso é um problema e uma responsabilidade de todos, que devemos como sociedade, combater todas as formas de violência contra mulheres e meninas, lutar pela igualdade de gênero e pela defesa dos direitos humanos.

Mais notícias

Theatro São Pedro