Jezebel De Carli: o teatro como espaço de escuta, encontro e transformação
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Diretora, professora e pesquisadora, Jezebel De Carli construiu sua trajetória entre a criação artística, a formação de novos profissionais e a investigação das linguagens cênicas. Influenciada por importantes mulheres que ajudaram a construir a história do teatro no Rio Grande do Sul, desenvolve seu trabalho em diálogo com a pesquisa, a prática artística e a formação de novas gerações. Nesta entrevista para o projeto Banrisul Mulheres da Cena Gaúcha, compartilha memórias de encontros marcantes em sua carreira, reflete sobre a presença das mulheres nos processos criativos e fala sobre como a convivência com estudantes e jovens artistas segue alimentando sua curiosidade, sua prática profissional e seu olhar sobre o fazer teatral.
Quem são as mulheres da cena artística gaúcha que são referências para o que você faz hoje?
Minhas principais referências mulheres da cena artística gaúcha são Maria Helena Lopes, Maria Lúcia Raymundo, Jussara Miranda e Irene Brietzke.
Qual projeto ou momento mais te marcou ao longo da sua trajetória artística?
Foram muitos momentos significativos, alguns durante a formação e outros já profissionalmente. Cito alguns:
- Integrante do Núcleo de Pesquisa e Treinamento do Ator (NPTA), primeira pesquisa acadêmica em Teatro do Estado do Rio Grande do Sul, registrada no CNPq e orientada pelo professor Irion Nolasco e pela professora Maria Lúcia Raymundo, no Departamento de Arte Dramática da UFRGS.
- Atriz do grupo TEAR dirigido pela encenadora Maria Helena Lopes.
- O meu primeiro espetáculo com encenadora com a Santa Estação Cia de Teatro, denominado "Parada 400: convém tirar os sapatos", com o qual recebi o Prêmio Açorianos de Melhor Direção.
- Os inúmeros espetáculos os quais assisti no Porto Alegre Em Cena e que se tornaram referência para minha poética como encenadora. Na edição de 2007 do Poa Em Cena, a encenadora Ariane Mnouchkine veio com o Théatre du Soleil apresentar o espetáculo "Les Éphémères" e por algum motivo "invisível" tive a oportunidade de conhecê-la, almoçar com o coletivo e assistir várias vezes o espetáculo. Ao final da semana Ariane me convidou para jantar com ela e Juliana Carneiro da Cunha. Foi um encontro que marcou minha vida profissional e uma das noites mais incríveis e agradáveis ao conversar sobre teatro e vida.
- Outro momento importante foi o encontro com o ator Silvero Pereira que resultou no espetáculo “BR-TRANS", o qual realizou um percurso extremamente exitoso pelo Brasil (inúmeras apresentações por todas as regiões do país sempre com ingressos esgotados e com viagens internacionais aos EUA e Alemanha).
- Participação do Coletivo Errática no Palco Giratório Nacional com o espetáculo "Ramal 340: sobre a migração das sardinhas ou porque as pessoas simples mente vão embora”, sob minha direção.
O que muda no processo criativo quando o elenco, a equipe ou o coletivo é majoritariamente feminino?
Penso que uma produção na qual a maioria é de mulheridades (conceito que abarca a diversidade de mulheres) apresenta uma tendência maior à escuta, ao sensível, à colaboração e a equidade e isonomia. Provavelmente haverá um questionamento aos processos hierárquicos que colaboram para a manutenção de relações machistas, misóginas e preconceituosas. Há também uma valorização da potencialidade da mulher, criando um ambiente mais seguro e acolhedor.
Porto Alegre aparece na sua obra? De que forma a cidade entra no que você cria?
Porto Alegre está nas produções não de forma explícita e nem didática, mas na medida que sou uma cidadã que vive nessa comunidade, minhas inquietações como artista refletem histórias, memórias, afetos e situações vivenciadas em Porto Alegre, entretanto ficcionalizadas e redimensionadas para a linguagem das Artes da Cena.
Na sua visão, como o teatro consegue equilibrar a leveza da poesia com o peso da crítica social sem perder o poder de entreter?
Atingir em um espetáculo humor e densidade, crítica e leveza, sensibilidade e contundência é o transito que persigo em minhas criações. É um tanto pretensioso, todavia entendo que são estados possíveis de estarem simultaneamente em uma montagem teatral. Contemporaneamente o hibridismo está presente na maioria dos espetáculos. Há crítica social e política, entretanto é fundamental que haja espaço para a leveza, a poesia e o humor, sob pena do espetáculo se tonar enfadonho, didático, discursivo e que imponha ao público um único entendimento ou pensamento. O humor é um ato político e crítico, sendo entretenimento, desde que não reafirme e valide princípios e valores opressivos, preconceituosos, machistas, misóginos, racistas, homo e transfóbicos, etc. Em um espetáculo, cujo a temática seja densa e crítica, é plausível ações performativas brincadas, leves, paródicas e irônicas, cujo o trágico e o drama não desaparecem, mas criem ganhem contraste, sendo assim promovendo a crítica social e a diversão ou o entretenimento.
Trabalhando simultaneamente com a formação de novos profissionais na UERGS e com a criação profissional do Coletivo Errática, como a efervescência e as inquietações dos estudantes de teatro alimentam o seu olhar como diretora fora da universidade?
Eu entendo que o espaço acadêmico e o espaço de criação artística não são separados, muito pelo contrário, são territórios que se fomentam continuamente. Há na Uergs e no curso de Teatro o entendimento de que a universidade procure formar um perfil de egressos que operem em diferentes frentes do mercado de trabalho, seja na docência ou na produção artística. Perseguimos constantemente e cada vez mais aproximar o universo acadêmico dos processos externos à universidade. Sendo a Uergs um lugar de perguntas e questionamentos, as alunas e alunos trazem inquietações e provocações muito próprias de se tempo, problematizam referências, metodologias, atitudes que me convidam e me estimulam a rever constantemente minha prática na educação, no teatro e na vida cotidiana. Por outro lado manter meu trabalho no Coletivo Errática é fundamental e indispensável porque me permite investigar, pesquisar e criar em um coletivo que opera no mercado profissional, sendo que tais vivências e ações devolvem à universidade questões concretas sobre criação, produção, montagem, pesquisa continuada, recepção e ética na forma de aulas e projetos acadêmicos de pesquisa e extensão alavancados na experiência e na prática. Sustentar relações com jovens artistas e seus desejos e pensamentos é um eterno retorno à juventude e formação, alimenta minha curiosidade, desacomoda dogmas e reativa sonhos e pulsões. Zeami, fundador do Teatro NÔ, afirmou que #quando vc tem a flor da juventude deve desenvolver a flor do ofício porque quando a flor da juventude tiver desaparecido será tarde demais para desenvolver a flor do ofício”.